4 em cada 10 estudantes já sofreram bullying no Brasil — e o que a escola pode fazer
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Escola6 min de leitura · 23 de março de 2026

4 em cada 10 estudantes já sofreram bullying no Brasil — e o que a escola pode fazer

Quatro em cada dez estudantes brasileiros entre 13 e 17 anos afirmam já ter sofrido bullying. Entre as meninas, esse índice sobe para 43,3%. E 27,2% dos alunos relatam ter passado por isso duas ou mais vezes — o que caracteriza o bullying como algo persistente, não episódico.

Esses dados são da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024), divulgada pelo IBGE em março de 2026 — a pesquisa de base escolar mais abrangente do Brasil, com dados coletados em escolas de todo o país.

Os números não são novidade. São uma tendência. Em 2009, o índice era de 30,9%. Em 2019, chegou a 40,5%. A violência interpessoal nas escolas brasileiras cresceu mais de 250% entre 2013 e 2023, segundo o Ministério dos Direitos Humanos.

O que está mudando é a consciência de que o bullying não é brincadeira, não é fase e não resolve sozinho.

O que o bullying faz com quem sofre

Os impactos vão além do sofrimento imediato. Pesquisas mostram que estudantes vítimas de bullying apresentam:

Em 2024, mais de 2.300 denúncias de bullying em instituições de ensino foram registradas na Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos — um aumento de 67% em relação ao ano anterior. E em 2023, os cartórios brasileiros registraram mais de 121 mil notificações de bullying e cyberbullying — uma média de 10 mil por mês.

"Do ponto de vista psicológico, sabemos que o desenvolvimento intelectual e emocional da criança se dá nas interações sociais. Quando essas interações são marcadas por violência, o dano é profundo e duradouro." — Eduardo Pedroso, psicólogo e especialista em psicologia educacional

O problema da resposta institucional

Um dos dados mais preocupantes da PeNSE 2024 não é sobre os alunos — é sobre as escolas.

Apenas 43,2% dos alunos estavam em escolas que realizaram ações de prevenção ao bullying. Apenas 37,2% das unidades atuaram para prevenir brigas. E em uma pesquisa anterior sobre bullying no ambiente educacional, 69% dos estudantes que buscaram apoio na escola disseram que nenhuma providência foi tomada.

Isso revela uma lacuna crítica: o problema existe, é visível, mas as respostas ainda são fragmentadas e insuficientes.

A socióloga Flávia Xavier, da UFMG, coordenou uma pesquisa nacional com gestores de secretarias de educação e concluiu que apenas 4,1% das secretarias apresentam alto nível de estruturação para lidar com a violência escolar — com ações articuladas em todas as dimensões necessárias.

O que muda com a Lei 14.811/2024

Em janeiro de 2024, o Brasil deu um passo importante: a Lei 14.811/2024 incluiu os crimes de bullying e cyberbullying no Código Penal. A norma também criminalizou o induzimento ao suicídio ou automutilação pela internet — uma resposta direta aos chamados "desafios virais" que têm tirado vidas de adolescentes.

Isso significa que bullying deixou de ser tratado apenas como problema pedagógico e passou a ter consequências legais. Para escolas, pais e estudantes, é uma mudança significativa de contexto.

O que pais podem fazer

O papel dos pais é insubstituível — tanto na prevenção quanto na resposta quando o bullying acontece.

Sinais de alerta para ficar atento:

O que fazer quando o filho conta:

O papel insubstituível da escola

A escola não pode resolver sozinha o que a sociedade produz — mas ela tem uma função única: ser o espaço onde as crianças aprendem a conviver.

Isso não acontece por acaso. Requer intencionalidade: programas de convivência, educação socioemocional integrada ao currículo, canais seguros para denúncia, formação contínua de professores e, principalmente, uma cultura escolar que não tolera a crueldade.

Pesquisas mostram que as abordagens mais eficazes contra o bullying não são punitivas — são relacionais. O que protege as crianças é pertencer a um ambiente onde se sentem vistas, incluídas e seguras. Um ambiente onde o diferente é respeitado, não atacado.

Esse é um trabalho que começa na sala de aula, mas não termina lá. Ele continua em casa, nas conversas à mesa, nos exemplos que damos de como tratamos pessoas diferentes de nós.

Conclusão

O bullying não é inevitável. Não é "coisa de criança". Não é culpa de quem sofre.

É um problema coletivo — que exige resposta coletiva. Escola, família e sociedade precisam agir juntos, com dados claros, leis aplicadas e, acima de tudo, com o compromisso de que nenhuma criança deveria ter medo de ir à escola.

Se o seu filho está sofrendo bullying, ou se você suspeita que sim: não espere. Aja agora.

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