Você já percebeu seu filho reclamando de dor de barriga antes de ir para a escola, sem nenhuma causa médica aparente? Ou notou que ele evita situações novas, dorme mal, ou fica preso em preocupações que parecem grandes demais para a idade? Esses podem ser sinais de algo que os dados brasileiros estão confirmando com urgência: a ansiedade infantil cresceu de forma alarmante — e chegou às nossas casas e salas de aula.
Um número que precisa ser lido com atenção
Entre 2014 e 2024, os atendimentos por transtornos de ansiedade no Sistema Único de Saúde entre crianças de 10 a 14 anos cresceram quase 2.500% — de 1.850 para mais de 24.300 casos por ano. Entre adolescentes de 15 a 19 anos, o salto foi ainda maior: 3.300%, segundo levantamento do Ministério da Saúde.
Mais revelador ainda: pela primeira vez na história, os registros de ansiedade entre crianças e jovens superaram os de adultos no Brasil. A taxa de adolescentes atendidos chegou a 157 a cada 100 mil — contra 112,5 entre adultos com mais de 20 anos, conforme dados da Rede de Atenção Psicossocial do SUS.
Esses não são apenas números. São filhos, alunos, famílias reais enfrentando algo que ainda é tratado, muitas vezes, como "frescura" ou "fase".
O que está por trás desse crescimento
A professora Leila Tardivo, do Instituto de Psicologia da USP, aponta que os problemas de saúde mental entre jovens já estavam em ascensão antes mesmo da pandemia. O isolamento social de 2020 e 2021 agravou o cenário, mas não foi a causa — foi o acelerador.
Entre os fatores que especialistas identificam como principais gatilhos:
- Excesso de tempo de tela e redes sociais — a exposição constante a estímulos digitais impede que a criança aprenda a lidar com estados desconfortáveis como tédio, frustração e incerteza
- Pressão acadêmica precoce — a cobrança por desempenho, que começa cada vez mais cedo, gera um ciclo de medo do erro
- Ambiente familiar sob estresse — pais ansiosos tendem a ter filhos ansiosos; em até 30% dos casos, tratar a ansiedade dos pais impacta diretamente a melhora da criança
- Rotinas sem espaço para brincar — a brincadeira livre e não supervisionada é um dos mecanismos naturais de regulação emocional infantil, e ela está desaparecendo
A Organização Pan-Americana de Saúde estima que entre 10% e 20% dos jovens brasileiros de 10 a 19 anos enfrentam algum problema de saúde mental — e a maioria não recebe tratamento adequado.
Como a ansiedade aparece nas crianças
Um dos maiores desafios é que crianças ansiosas raramente dizem "estou ansioso". Elas comunicam o sofrimento de outras formas:
- Reclamações físicas recorrentes sem causa médica: dor de barriga, dor de cabeça, náuseas — especialmente antes da escola
- Resistência ou recusa em atividades que antes eram prazerosas
- Dificuldade para dormir, pesadelos frequentes ou insistência em dormir com os pais
- Perfeccionismo exagerado e medo intenso de errar
- Irritabilidade ou explosões emocionais desproporcionais
- Necessidade constante de reafirmação dos pais
"Os pais costumam conhecer as reações habituais de seus filhos. Um sinal de alerta é a criança precisar de cada vez mais tempo e apoio para se recuperar de situações que antes ela lidava bem." — Dra. Gabriela Crenzel, Departamento de Saúde Mental da SOPERJ
A ansiedade se torna um transtorno quando começa a limitar a vida da criança — quando ela evita sistematicamente situações, quando o sofrimento é desproporcional à realidade, ou quando os sintomas persistem por mais de seis meses.
O que pais podem fazer
A boa notícia é que a intervenção precoce faz diferença real. E muitas das ações mais eficazes não exigem especialistas — exigem presença e consistência.
No dia a dia em casa:
- Crie espaço para conversa sem julgamento — pergunte sobre o dia, mas também sobre os sentimentos
- Mantenha rotinas estáveis: horários de sono, refeições e tempo de tela previsíveis reduzem a ansiedade
- Valorize o brincar livre — deixe a criança se entediar, resolver conflitos sozinha, explorar sem agenda
- Cuide da sua própria ansiedade — seu estado emocional afeta diretamente o seu filho
Quanto às telas: A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda: até 2 anos, nenhuma tela; de 2 a 5, uso limitado e supervisionado; de 6 a 10 anos, no máximo 2 horas por dia; adolescentes, até 3 horas. Esses limites existem por razões documentadas — não são arbitrários.
Quando buscar ajuda profissional: Se os sintomas são persistentes, intensos e estão prejudicando a vida escolar, social ou familiar da criança, é hora de procurar um psicólogo infantil ou pediatra. O tratamento mais eficaz para transtornos de ansiedade em crianças é a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) — sem medicação na maioria dos casos leves e moderados.
O papel da escola nesse cenário
A escola não é apenas o lugar onde a ansiedade aparece — ela é também parte da solução. Professores e coordenadores estão frequentemente na linha de frente para perceber mudanças de comportamento que passam despercebidas em casa.
Uma parceria real entre família e escola — com comunicação aberta, sem julgamento e com foco no bem-estar da criança — é uma das ferramentas mais poderosas que temos.
Conclusão
Os números são assustadores, mas não precisam paralisar. Eles nos convidam a olhar com mais atenção para o que nossas crianças estão comunicando — não apenas com as palavras, mas com o corpo, o comportamento e o silêncio.
Cuidar da saúde mental das crianças não é tarefa exclusiva dos especialistas. Começa em casa, na mesa do jantar, na conversa antes de dormir, no espaço que abrimos para que elas sejam imperfeitas, incertas e, ainda assim, amadas.
